Ala do governo Lula vê interferência dos EUA nas eleições e não descarta novas ações de Trump após medida sobre PCC e Comando Vermelho

Crédito, Getty Images
- Author, Leandro Prazeres
- Role, Enviado da BBC News Brasil a Washington
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- Tempo de leitura: 5 min
Parte do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) avalia que a decisão dos Estados Unidos de designar o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas estrangeiras foi uma tentativa de interferência no processo eleitoral brasileiro com o objetivo de ajudar a candidatura do senador e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O país terá eleições gerais em outubro, e Lula também é pré-candidato.
A avaliação foi feita à BBC News Brasil, em caráter reservado, por interlocutores do presidente que acompanham as discussões sobre a relação entre Brasília e Washington.
Segundo um desses auxiliares, o governo brasileiro avalia como muito remota a possibilidade de que essa decisão não tenha tido o aval explícito do presidente Donald Trump.
A comparação feita no governo Lula é com o tarifaço imposto pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros no ano passado, que abriu a pior crise diplomática da história entre os dois países.
A diferença, segundo integrantes do governo, é que a designação do CV e do PCC ainda não teve todos os efeitos práticos conhecidos, mas a expectativa é de que eles sejam de ordem política, econômica e até mesmo na área da segurança pública.
O governo agora tenta se preparar para o caso de os EUA adotarem novas medidas durante o período eleitoral.
As mais imediatas poderiam ser a imposição de novas tarifas contra produtos brasileiros com base em investigações pela seção 301 da Lei de Comércio norte-americana, algo que o governo vem tentando evitar a todo custo.

Crédito, Reprodução/Instagram/@FlavioBolsonaro
A gestão Trump anunciou a designação do CV e do PCC como organizações terroristas estrangeiras na quinta-feira (28/5) depois de uma visita do senador Flávio Bolsonaro a Washington. Ele se reuniu com Trump, com o secretário de Estado Marco Rubio e com outros integrantes do governo.
Após os encontros, o senador afirmou ter defendido que os Estados Unidos adotassem a medida contra as facções brasileiras e disse que tanto Trump quanto Rubio tinham demonstrado serem favoráveis à adoção.
Para auxiliares de Lula, a decisão anunciada por Trump teve caráter político e teria sido tomada para ajudar a campanha de Flávio, que vem enfrentando dificuldades depois que o site The Intercept Brasil revelou que ele pediu R$ 134 milhões para o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Baster, preso por suspeita de praticar fraudes bilionárias.
Flávio disse que o dinheiro era para financiar o filme Dark Horse, uma cinebiografia sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), e negou ter praticado qualquer irregularidade. Apesar disso, pesquisas apontam queda em suas intenções de voto.
Segundo um auxiliar de Lula ouvido pela BBC News Brasil, a leitura no governo é de que houve uma articulação de bolsonaristas para criar um fato político capaz de retirar Flávio de uma situação em que ele estava acuado.
Cautela
Mas essa não é a única avaliação feita dentro do governo brasileiro.
Outro integrante da administração petista disse à BBC News Brasil que o governo Trump é marcado pela imprevisibilidade e que seria prematuro cravar que Trump estaria, deliberadamente, iniciando uma onda de ações com o objetivo de interferir nas eleições brasileiras.
Para esse auxiliar, o governo brasileiro deve estar preparado para eventuais consequências da designação do PCC e do CV como entidades terroristas, mas não deve se antecipar a movimentos que ainda não estejam claros.
Ela mencionou que a nota do governo brasileiro não classificou formalmente a decisão norte-americana como interferência eleitoral, mas criticou a ação de atores domésticos que pediam a adoção da medida, em referência à ação da família Bolsonaro.
"A segurança da nossa população é importante demais para ser manipulada politicamente por traidores que tentam confundir esses conceitos. Por falsos patriotas, envolvidos com o crime organizado, que pedem a autoridades estrangeiras a interferência em assuntos brasileiros", diz a nota.
Apesar dessa cautela, reconhece que o governo sabe que o episódio está e será usado politicamente por aliados de Flávio. A preocupação agora é com relação a possíveis novas medidas a serem adotadas pela administração Trump.
Em suas redes sociais, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP ) disse na sexta-feira (29/5) que novas ações de Trump poderão ser anunciadas. Ele também participou das reuniões do irmão com as autoridades americanas em Washington.

Crédito, Ricardo Stuckert/Divulgação
Uma das possíveis medidas que mais preocupa o governo é a imposição de novas tarifas sobre a exportação de produtos brasileiros. A avaliação é de que o caminho mais rápido para isso seria por meio das investigações comerciais em andamento no governo americano por supostas práticas comerciais irregulares do Brasil.
Durante a visita de Lula ao presidente Trump, no início de maio, o governo havia conseguido um prazo de 30 dias para discutir um novo acordo com o objetivo de evitar que uma dessas investigações resultasse na aplicação de tarifas ao Brasil.
O prazo vence no dia 7 de junho. Auxiliares de Lula afirmam que, ao menos por enquanto, o petista e seu alto escalão não deverão procurar o governo americano para tratar do assunto.
Ainda não está claro, sequer, se o tema será abordado em um eventual encontro entre os dois durante a reunião do G7, prevista para a segunda quinzena de junho.



























